A unidade de tratamento de pacientes em estado critico do hospital Beth Israel sempre fazia com que Clarissa lembrasse da Antartida: era frio, remoto e as paredes eram brancas e azuis. As paredes do quarto da mãe eram brancas, os tubos que lhe cercavam a cabeça e a infinidade de aparelhos apitando ao redor da cama eram cinza e o cobertor que a cobria até o busto era azul-claro. Estava com o rosto pálido. Ela ficou imaginando como Stubb estaria dando conta de pagar aquele hospital. Ela concluiu que poderia perguntar quando ele voltasse da maquina de cafe.
- Mãe - disse ela. Estendeu a mão e
pegou a mão da mãe. - Mãe, eu... - Limpou a garganta.- Eu preciso falar com você. Não tem problema se você não me responder. Então a questão é... - Ela engoliu em seco novamente e olhou pela janela - É o Robbin. Aconteceu uma coisa com ele. E eu sei que foi culpa minha. Entao, basicamente, eu estraguei tudo.
Eu me lembro de quando você falava que crescer acontece quando você olha para trás e percebe que há coisas que gostaria de mudar. Acho que isso significa que eu cresci.
Stubb havia entrado no quarto.
- Isa - ele estava com a quarta xicara de cafe na mao -, precisamos ir.
Ela beijou o rosto da mãe e seguiu para o carro. Eles partiram para casa.
- Sabe, - disse Stubb - eu acho que voce
precisa sair, ver gente.
- Stubb, Ultimamente eu tenho escrito muito. As palavras são meu refúgio, são a elas e às folhas do meu caderno a quem eu recorro quando preciso libertar esses meus sentimentos. Ninguém me escuta, ninguém se importa, ninguém me entente. Nem eu mesmo.
- Nao diga isso. Eu e Raphael nos importamos.
- Quem é Raphael? - ela disse enquanto eles entravam em casa.
Ele demorou um pouco para responder.
Ele assobiou, parecia estar chamando um passaro ou coisa parecida. Um passaro preto entrou na pequena casa de Stubb e pousou na frente de Isa. Ela se afastou um pouco, e ele se transformou em um homem de pele dourada e olhos e cabelos casntanhos-claro.
Ela olhou para ele, e o mundo inteiro desapareceu. Como se houvesse apenas eles dois, como se sempre só fosse haver eles dois. E não iriam precisar de magia para isso. Era meio que feliz e triste, tudo ao mesmo tempo. Ele não conseguia ficar perto dela sem sentir coisas, sem sentir tudo.
Stubb estava falando alguma coisa, mas eles não se importaram. Eles não se importavam com nada, apenas com o que estava acontecendo naquele momento. Ficaram assim se entreolhando durante minutos.
- Meninos? - disse Stubb desviando a atenção e o olhar um do outro.
- O que voce disse? - disse Raphael.
- Eu disse que voce ira protege- la. Assim como voce fez em toda a sua vida.
Eles assentiram com a cabeça.
- Eu preciso ir na minha casa. Minhas roupas estao acabando e eu nao trouxe meus documentos.
- Se Raphael for com voce, tudo bem.
Ela detestava a coisa de ser vigiada e protegida o tempo todo fazia com que ela se sentisse em apuros.
Eles foram de metro ate a casa de Clarissa.
E coversavam como se eles ja se conhecessem a seculos. Ela se sentia bem em ter alguém com quem podia conversar sem ter que editar tudo o que dizia.
Quando chegaram ate a casa de Isa, a porta estava aberta e o sinal de destruiçao era claro. A luz do teto havia queimado, e o saguao que antecede a casa estava escuro. As sombras pareciam cheias de movimentos secretos. Tremendo, ela comecou a entrar.
A sensação de alguma coisa estava errada só aumentou ao chegar à porta do apartamento. Estava destrancada, entreaberta, deixando vazar um feixe de luz no chão. Com um sentimento crescente de pânico, ela empurrou a porta. Dentro do apartamento, as luzes estavam acesas, todas as lâmpadas, tudo completamente claro. O brilho agrediu seus olhos.
Sem se importar muito com a destruiçao, foi para o quarto e colocou algumas peças de roupa numa mochila verde. Raphael dissera que tinham que sair rapido pois havia muita atividade demoniaca ali. Clarissa pegou as chaves na pequena prateleira de vidro ao lado da porta e saiu seguida por Raphael.
Quando chegaram na casa de Stubb já era noite, e os pensamentos de Clarissa não faziam sentido algum, ela só queria entender o que estava acontecendo consigo, quando se deu conta de que apesar de não entender nada do que se passava, a única coisa de que ela tinha certeza, era de que ela não poderia ignorar algo que lhe fazia sorrir o tempo todo.
Ali mesmo, deitada no sofá, adormeceu.
Quando acordou, acordou engasgada, o coração batendo dolorosamente contra as costelas. Estava na cama do quarto de hospedes da casa de Stubb e a luz da tarde atravessava as cortinas. O cabelo estava grudado ao pescoço com o suor, e os braços queimavam e doiam. Quando entrou na cozinha, percebeu que Stubb tinha deixado um cafe da manhã para ela: um pão doce em uma caixinha manchada de gordura. Também havia deixado um bilhete na geladeira. Fui ao hospital. Feliz aniversário. Ela comeu o pão doce e sentou-se no sofá enquanto ligava a televisão. Sabe, ela adorava aquele sofá, lembrava a cama da mãe. Ela se viu lembrando de uma foto que há no quarto de Kk: ela tinha cinco anos, os cabelos vermelhos estavam soltos e ela e Kk estavam na praia construindo um castelo de areia.
Ela continuou pensando em como tudo era bom. Em como tudo era pra ser bom. Aí veio uma lágrima. E outra, outra, outra. Inevitável.
O dia passou lento e preguiçoso. No crepusculo da noite Clarissa foi para o quarto tomou um banho e vestiu uma camiseta azul-bebê de algodão e o short combinando, quando acabou ouviu alguem bater a porta. Ela atravessou o quarto descalça e abriu a maçaneta sileciosamente. Era Raphael. Limpo, com calças jeans e camiseta cinza, os cabelos lavados e dourados.
- Você estava dormindo? - ele perguntou. Não tinha qualquer contrição na voz, apenas curiosidade.
- Não - Isa foi ate o corredor, fechando a porta atras de si. - Passei o dia quase todo na cama - ela disse, o que tecnicamente era verdade.
Ele sorriu. Diferentemente dos cabelos, seus dentes não eram perfeitos. Um dos incisivos superiores estava levemente lascado de um jeito adoravel.
- O que voce esta fazendo aqui afinal?
- Aqui no seu quarto, ou aqui, referindo-se à grande questão espiritual do proposito de vida neste planeta? Se voce estiver perguntando se é tudo uma coincidência cosmica ou se há um proposito maior à vida, bem, essa é uma questão para seculos de discurssão, um simples reducionismo ontológico é um argumento claramente falaz, mas...
- Vou voltar para cama. - Ela esticou a mão para alcançar a maçaneta.
Ele se colocou entre ela e a porta.
- Estou aqui - ele disse - porque Stubb me lembrou que é seu aniversario.
Isa suspirou exasperada.
- Só amanhã.
- Isso não é motivo para não comerçamos a celebrar agora.
Ele mostrou as mãos. Nelas, trazia um saco de papel levemente amassado.
- Peguei um pouco de comida na cozinha.
Isa sorriu.
- Um piquenique? Está um pouco tarde para o Central Park, não acha? Está cheio de...
Ele acenou com a mão.
- Fadas, eu sei.
- Eu ia dizer assaltantes - disse Isa. - Embora eu tenha pena do assaltante que resolver ir atras de você.
- E essa é uma atitude sábia, meus cumprimentos por isso. Mas não estava pensando no Central Park. Que tal a estufa?
- Agora? À noite? Não vai estar... escuro?
Ele sorriu como se fosse um segredo.
- Vamos. Eu te mostro.
À meia-luz, as salas que atravessaram a caminho do telhado pareciam tão desertas.
Quando Raphael abriu a porta da estufa, o cheiro atingiu Isa, suave como o toque da patinha de um gato. Atraves das paredes de vidro do recinto, ela podia ver as luzes de Mahattan queimando como joias.
- Uau. - ela virou lentamente, absorvendo aquilo tudo. - É muito lindo à noite!
- E temos o lugar só para nós.
Clarissa sorriu com certa relutancia e sentou-se na frente dele. Do saco de papel, ele tirou algumas maças, uma barra de chocolate com frutas e amêndoa, e uma garrafa de água.
O sanduiche de queijo estava morno e um pouco mole, mas o gosto era bom. Ele tirou uma faca e começou a partir as maçãs em oito pedaços.
- Bem não é um bolo de aniversario - ele disse dando um pedaço a ela - mas espero que seja melhor que nada.
- "Nada" era exatamente o que eu estava esperando, então obrigada. - ela mordeu um pedaço da maçã.
Em algum lugar soava um sino.
- Meia- noite - disse Raphael, repousando a faca. Ele se levantou, esticando a mão para puxar Isa para o lado dele. - Agora observe.
As folhas do arbusto estavam imoveis.
- Espere - ele disse.
De repente, um dos botões começou a tremer. Inchou atigindo o dobro do tamanho original e abriu.
- Oh! - ela disse comovida.
- Feliz aniversario, Clarissa Cury.
Ela estava estranhamente comovida com aquilo.
- Obrigada.
- Esta ficando tarde - ele disse. - É melhor descermos.
Agora ele olhava para ela. A luz do luar realçava os olhos deles. Agora eram mais prateados do que dourados.
- Voce é linda! - disse Raphael.
Clarissa nao respondeu nada, porque não tinha nada a dizer.
- Acho que deveriamos descer - ele disse outra vez.
- Tudo bem - disse ela, afinal.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
Parte Dois- Os Portões do Inferno
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